Antes
do rock virar música de corno e trilha sonora da
novela das seis (Oh Anna Julia, Fácil extremamente
fácil), existiu o Punk Rock, o mais original e relevante
movimento da música popular mundial. Tão autêntico
que se transformou em movimento cultural, estilo de vida,
estilo de música, moda, design, artes plásticas,
cinema, poesia, tecnologia, comportamento ético e
político. Tão viceral que enfrentou a repressão
política no Brasil e atacou as convenções
sociais e políticas na gringolândia. Muito
antes dos rappers começarem a denunciar a opressão
que sofrem na periferia das grandes cidades, os punks atacaram
tudo que era maçante, tradicional, injusto e imoral.
Ao
contrário do que muitos pensam, Punk não significa
apenas música barulhenta ou roupa suja. Você
pode ser pagodeiro e ainda ser Punk. Você pode adorar
Beethoven e ainda ser Punk. Você pode ser jazzista
e ainda ser Punk. Você pode ser o maior pé
de valsa do bairro e ainda ser Punk.
Punk
significa assumir uma atitude de revolta e um estado mental
de indignação contra tudo que está
errado e tudo que é tradicional. Sim, inclusive tudo
que é tradicional.
Para
a geração dos nossos pais, o tradicional é
ver os netos jogando bola na rua durante a tarde inteira,
punk é ver os netos brincando de Second Life a tarde
inteira. Os velhos dizem, "Moleque, vai para a rua.
Com a sua idade eu brincava na rua. Larga esse computador,
essa droga é perda de tempo, vai viver!". Entretanto,
eles se esquecem do que aconteceu com eles quando crianças.
Muito provavelmente o avô deles os pegou lendo um
bom livro sentado na varanda e disse, "Moleque, vai
para o campo arar a terra para as batatas. Com a sua idade
eu arava batata a tarde inteira no Sol a pino sem reclamar.
Larga esse livro, essa droga é perda de tempo, livro
é coisa de maricas, vai trabalhar!". O quê
Second Life é para os netos hoje, o livro foi para
os pais ontem. Tudo que é Punk hoje será tradicional
amanhã. Tudo que é contraventor hoje será
tradicional amanhã. Erro é ignorar os punks.
Erro é ser ignorante com relação aquilo
que desconhecemos, um erro que vai te isolar no seu mundinho
tradicional.
Como
ser um autêntico Punk nos negócios?
Tradicional
é pagar a Hebe Camargo para fazer merchã de
shampoo popular, e acreditar que o povão vai acreditar
que ela usa shampoo talibã no banheiro de 20m2 do
seu "casebre" no Morumbi. Quem acredita que a
mansão do Zezé de Camargo e Luciano em Alphaville
em São Paulo é totalmente decorada com móveis
da Marabrás? Pô, se liga Zé Tradicional!
A grande
verdade é que o marketing no Brasil é muito
fraquinho. Você vê ações tradicionais
de comunicação, poucas criativas. Você
vê ações tradicionais de ponto-de-venda,
quase nenhuma realmente inovadora. Você vê eventos
tradicionais, e alguns bons. E só. A marketada por
trás das ações de marketing não
vão além da empurroterapia de produtos, e
aplicação de ferramentas de comunicação.
Resultado:
é raridade você encontrar clientes realmente
apaixonados por alguma marca. Entenda como apaixonar-se
por uma marca como o envolvimento viceral do cliente com
o produto a ponto de vê-lo vestir a camiseta da marca
aos finais de semana.
Você
já se viu usando uma camiseta do Leite Moça
da Néstle na festinha dos amigos do seu filho? Eu
acho que não. Eu aposto que se você ganhasse
uma camiseta do leite moça você a usaria para
dormir, e depois de algum tempo como pano de chão,
certo?
Eu
uso alguns produtos da Néstle, mas estou longe de
ser apaixonado pelos caras. Eu tenho duas ou três
havaianas em casa, mas nunca fui tentado pela Alpargatas
a me engajar na marca. Há anos eu uso a droga do
Speedy da Telefônica. Na planilha do marketeiro da
Telefônica eu apareço como cliente fiel, mas
eu jamais serei apaixonado pela droga dessa empresa e pela
droga do serviço deles. O produto é slow ao
invés de speedy, o serviço de suporte é
ridículo, não resolve o meu problema e empurra
com a barriga. Contudo, como eu preciso de internet banda
larga para trabalhar, eu engulo os caras. Mas, quando o
monópolio que eles têm na minha região
acabar, eu vou ser o primeiro e trocar os espanhois.
O fato
é que nós temos que usar alguns produtos durante
o curso do nosso dia por necessidades de Maslow, e daí
nós escolhemos as marcas baseadas naquilo que ouvimos
sobre elas. E ponto. Mas o marketing poderia fazer um trabalho
muito melhor do que isso.
O Marketing
poderia casar com o cliente, fazer parte do seu dia-a-dia.
Vejamos.
Tradicional
é você ver o Corinthians faturar em cima de
dinheiro de fundos duvidosos e burlar os impostos do país.
Punk é ver a Federação Paulista de
Futebol criar um web site onde o fã de futebol consegue
assistir a todos os jogos do campeonato paulista via streaming
video simultaneamente na telinha do seu computador, ao vivo
ou quando ele bem entender, além de ter acesso a
todas as estatísticas, jogos dos campeonatos passados,
históricos dos jogos, jogadores, revista do campeonato,
adesivos oficiais, lojinha oficial, fóruns e blogs
de discussão. Punk é ver um fã de futebol
assistir a um clássico entre Corinthians e Palmeiras
e ainda ter a oportunidade de comprar a camiseta oficial
da partida, com a logomarca do clássico na frente,
e os resultados dos últimos 100 jogos entre as equipes
nos últimos 50 anos nas costas.
Tradicional
é vender essa idéia para os marketeiros cabecinhas
dos clubes de futebol e aguardar que a cartolada entenda
do que eu estou falando e faça os seus tradicionais
conchavos com os tradicionais amigos. Punk é implementar
essa idéia na Federação Brasileira
de Basquete, Vôlei, Tênis ou Golf que são
esportes que mal e porcamente são cobertos pela televisão
do bispo ou pela rede bobo e provavelmente estão
abertos a maneiras punks de fazer marketing.
Tradicional
é gravar 18 músicas medíocres e 2 músicas
de trabalho, colocar tudo em um cedêzinho tradicional,
vender nas lojas tradicionais e tocar aos domingos no playback
tradicional no Chacrinha 2.0, entenda Faustão. Punk
é trocar uma mega-gravadora por uma agência
de marketing capaz de realmente criar e gerenciar múltiplos
canais de distribuição da sua música
para assim engajar o fã com o seu trabalho. A Madonna
acaba de fazer exatamente isso. Ela trocou a Warner pela
Live Nation que apesar do pequeno porte, tem idéias
e ferramentas arrojadas, integradas e preparadas para fazer
o casamento perfeito entre a Madonna 2.0 e seus fãs.
Eu
acredito que todo tipo de produto, serviço ou negócio
pode fazer algo nesse sentido. Se a Harley Davidson conseguiu
fazer com uma motocicleta, nós conseguimos fazer
com qualquer coisa. O programa de marketing de casamento
da Harley com seus clientes, o H.O.G., tem hoje 1 milhão
de participantes em todo o planeta.
Veja
que eu não me refiro aos tradicionais programas de
fidelidade com cartãozinho de plástico ou
programas de relacionamento onde você troca as suas
compras por geladeiras, máquinas de lavar e mp3s
xingue-lingue. Eu me refiro a bem cuidados e punks programas
de marketing de casamento que realmente fazem o cliente
se apaixonar por uma marca, desenvolver um certo diálogo
com a empresa e outros clientes, e eventualmente ser fiel.
Punk é engajar os clientes em um exclusivo clube
de clientes que através da distribuição
de um contéudo imparcial e apaixonado ensina os clientes
a resolverem os pequenos inconvenientes do seu dia-a-dia.
É
tão difícil conquistar um cliente hoje em
da, que eu penso que uma vez conquistado, tem que ser engajado
nas víceras da empresa.
O marketing
que eu acredito que vai funcionar daqui prá frente
é o que eu chamo de marketing de casamento, ou até,
marketing de estilo de vida.
Tradicional
é você torrar o seu dinheiro de marketing em
atividades de terceiros como propaganda para a massa, stand
na feira da massa, web banner no portal da massa e promotor
de vendas na loja da massa. Punk é você acreditar
no lema do movimento punk: FAÇA VOCÊ MESMO,
MESMO QUE VOCÊ NÃO SAIBA FAZER DIREITO. Faça
a sua própria revista, crie a sua própria
comunidade, desenvolva você mesmo o contéudo
imparcial relevante para a sua comunidade, convide os participantes
do seu movimento punk para os seus próprios pequenos,
caseiros e intimistas eventos de relacionamento, e acima
de tudo, deixe os seus clientes fazerem tudo para você.
Não
consegue fazer tudo isso sozinho? Junte-se a outros punks!
Faça parte do nosso movimento. A maneira Punk de
fazer marketing está mais viva do que nunca.
QUEBRA
TUDO! Foi para isso que eu vim! E Você?
Ricardo
Jordão Magalhães